Emoções nos animais | Um ensaio científico de Marc Bekoff


Nota do blogue: O estudo aprofundado das emoções nos animais é relativamente recente, o que explica o actual desacordo entre os científicos que Bekoff aborda no seu ensaio. O assunto foi continuamente tratado do ponto de vista filosófico e científico, embora compactado numa bolha de investigação conhecida como o behaviorismo. Basicamente, o argumento behaviorista é este: Por que os seres humanos postulam a consciência e todas as suas implicações quase humanas em animais para explicar algum comportamento, se a mera resposta-estímulo é uma explicação suficiente para produzir os mesmos efeitos? Grosso modo, é uma visão mecanicista.
Apesar deste reducionismo ter atrasado a especialização científica e académica sobre como a emoção animal realmente funciona, hoje já sabemos que esta questão é bem mais complexa.

Este artigo de Marc Bekoff, apesar de ser de 2000 e de assentar numa bibliografia das décadas de 80 e 90, continua bastante actual e expõe estudos e informações essenciais para compreendermos a emoção nos animais.

Sobre o autor: Marc Bekoff é um biólogo, ecólogo comportamental e professor emérito de Ecologia e Biologia Evolutiva da Universidade do Colorado. As suas áreas de estudo passam pelo comportamento animal, etologia cognitiva (o estudo das mentes dos animais), ecologia comportamental e conservação compassiva. É autor de mais de 1000 ensaios e de 30 livros, incluindo The Emotional Lives Of Animals, Encyclopedia Of Animal Behavior e Rewilding Our Hearts: Building Pathways of Compassion and Coexistence.

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Emoções dos Animais: Explorando Naturezas Apaixonadas
Marc Bekoff | BioScience • October 2000 / Vol. 50 No. 10

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Os elefantes sentem alegria, os chimpanzés luto e depressão, e os cães felicidade e desânimo? As pessoas discordam sobre a natureza das emoções nos animais não-humanos (daqui em diante animais), especialmente no que diz questão em saber se algum animal não-humano consegue sentir emoções (Ekman 1998). Os pitagóricos também acreditavam que os animais experimentavam o mesmo leque de emoções que os humanos (Coates 1998), e pesquisas actuais providenciam provas convincentes de que, pelo menos, alguns animais sentem uma panóplia completa de emoções, incluindo medo, alegria, felicidade, vergonha, embaraço, ressentimento, ciúmes, irritação, raiva, amor, prazer, compaixão, respeito, alívio, nojo, tristeza, desespero e luto (Skutch 1996, Poole 1996, 1998, Panksepp 1998, Archer 1999, Cabanac 1999, Bekoff 2000).

A expressão das emoções em animais aumenta um número de questões estimulantes e desafiadoras para as quais, relativamente, pouca pesquisa empírica sistemática foi dedicada, especialmente entre animais em liberdade.

Relatórios populares (ex., Masson e McCarthy's When Elephants Weep, 1995) conscientizaram sobre as emoções dos animais, especialmente entre os não cientistas, e forneceu aos cientistas informação útil para pesquisa sistemática adicional.

Tais obras também criaram arrepios entre muitos cientistas por serem especulativas, enganosas ou desleixadas (Fraser 1996). No entanto, Burghardt (1997), apesar de encontrar alguns pontos preocupantes no livro de Masson e McCarthy, escreveu: Eu prevejo que em poucos anos os fenómenos aqui descritos serão confirmados, qualificados e estendidos (p. 23). Fraser (1996) também observou que o livro poderia servir como uma fonte útil para motivar futuras pesquisas empíricas sistemáticas. Investigadores interessados em estudar as paixões animais colocam questões como: Os animais experimentam emoções? O que, se alguma coisa for, eles sentem? Existe uma linha que claramente separa as espécies que experimentam emoções daquelas que não experimentam?

Muita pesquisa recorrente segue Charles Darwin (1872; ver também Ekman 1998), apresentado no seu livro The Expression of the Emotions in Man and Animals. Darwin argumentou que há continuidade entre as vidas emocionais dos humanos e de outros animais, e que as diferenças entre muitos animais são em grau do que em espécie. Em The Descent of Man and Selection in Relation to Sex, Darwin asseverou que os animais inferiores, como o homem, manifestam sentir prazer e dor, felicidade e miséria (p. 448).

Naturalizando o estudo das emoções dos animais

O campo de pesquisa sobre comportamento é de suma importância para aprender mais sobre emoções dos animais, visto as emoções terem evoluído em contextos específicos. Naturalizar o estudo das emoções animais irá fornecer dados mais confiáveis porque as emoções evoluíram da mesma forma que outros fenótipos comportamentais (Panksepp 1998). Negar categoricamente as emoções dos animais porque não podem ser directamente estudadas não constitui um argumento razoável contra a sua existência. As mesmas preocupações poderiam ser levantadas contra as explicações evolucionistas de uma ampla variedade de padrões de comportamento, com histórias baseadas em factos impossíveis de serem verificados com precisão.

Aqui eu discuto vários aspectos da emoção nos animais, forneço exemplos nos quais os pesquisadores oferecem fortes evidências de que os animais sentem emoções diferentes, e sugiro que os pesquisadores façam uma revisão nas suas agendas em relação ao estudo da natureza das paixões. Particularmente, sugiro que os cientistas prestem atenção a narrativas juntamente com dados empíricos e argumentos filosóficos como heurísticos para a pesquisa futura. Concordo com Panksepp (1998), que afirma que todos os pontos de vista devem ser tolerados desde que levem a novas abordagens que expandem a compreensão humana para as emoções animais. O estudo rigoroso das emoções animais está na sua infância, e a pesquisa beneficiar-se-á enormemente de perspectivas pluralistas.

O meu objectivo é convencer os cépticos de que a combinação de pesquisa interdisciplinar dura e suave é necessária para o avanço do estudo das emoções dos animais. Reitero que os pesquisadores já reuniram ampla evidência (cujos dados acumulam-se continuamente) para sustentar o argumento de que, pelo menos, alguns animais têm vidas emocionais profundas, ricas e complexas. Também afirmo que aqueles que clamam que quase nenhuns animais têm vidas emocionais profundas, ricas e complexas que não conseguem sentir emoções como alegria, amor ou luto devem partilhar o ónus das suas provas com aqueles que argumentam de outra forma.

O que são emoções?

As emoções podem ser geralmente definidas como fenómenos psicológicos que ajudam no controlo e manejo comportamental. No entanto, alguns investigadores argumentam que a palavra emoção é tão ampla que acaba por não ter uma única definição. De facto, a falta de acordo sobre o que a palavra emoção significa pode ter resultado na falta de progresso em aprender sobre as mesmas. Da mesma forma, nenhuma teoria única das emoções capta a complexidade dos fenómenos chamados emoções (Griffiths 1997, Panksepp 1998). Panksepp (1998, p. 47ff) sugere que as emoções sejam definidas em termos das suas funções adaptativas e integrativas, em vez das suas características gerais de entrada e saída. É importante estender a nossa pesquisa para além dos mecanismos fisiológicos que mascaram a riqueza das vidas emocionais de muitos animais e aprender mais sobre como as emoções os servem quando realizam as suas actividades diárias.

Geralmente, cientistas e não cientistas parecem concordar que as emoções são reais e que são extremamente importantes, pelo menos para os humanos e, talvez, para outros animais. Enquanto não há muito consenso entre a natureza das emoções dos animais, não há escassez de considerações sobre o sujeito. Seguidores de René Descartes e de B. F. Skinner acreditam que os animais são como peças mecânicas que se condicionam a responder automaticamente a estímulos aos quais são expostos. Esta visão dos animais enquanto máquinas explica muito sobre o que eles fazem, pelo que é fácil entender o motivo pelo qual muitas pessoas a adoptaram.

Todavia, nem todos aceitam que os animais sejam meros autómatos e criaturas insensíveis de hábitos (Panksepp 1998). Por que então existem visões concorrentes sobre a natureza das emoções animais? Em parte, isso acontece porque algumas pessoas vêem os humanos como animais únicos, criados à imagem de Deus. De acordo com essa visão, os humanos são os únicos seres racionais e capazes de autorreflexão. Dentro das tradições científicas e filosóficas contemporâneas, ainda há muito debate sobre os animais serem autorreflexivos.

Rollin (1990) nota que, no final de 1800, os animais perderam as suas mentes. Por outras palavras, numa tentativa de emular as promissoras ciências exactas, como a Física e a Química, os pesquisadores que estudavam o comportamento animal aperceberam-se que havia pouquíssimos estudos sobre emoções e mentes dos animais que eram directamente observáveis, mensuráveis e verificáveis, preferindo assim concentrar-se no comportamento já que as acções explícitas podiam ser vistas, medidas objectivamente e verificadas (ver também Dror, 1999).

Os behavioristas, cujos primeiros líderes incluíram John B. Watson e B. F. Skinner, desaprovam qualquer tipo de diálogo sobre emoções (em alguns casos até de humanos) ou estados mentais em animais por considerarem não-científico. Para eles, seguindo o positivismo lógico, apenas o comportamento observável constitui dados científicos legítimos. Ao contrário dos behavioristas, outros investigadores nas áreas de Etologia, Neurobiologia, Endocrinologia, Psicologia e Filosofia abordam o desafio de aprender mais sobre as emoções nos animais e as mentes dos animais, acreditando que é possível estudar as emoções e as mentes dos animais (incluindo a consciência) de forma objectiva (Allen e Bekoff 1997, Bekoff e Allen 1997, Panksepp 1998, Bekoff 2000, Hauser 2000).

A maioria dos pesquisadores acredita actualmente que as emoções não são simplesmente o resultado de algum estado corporal que leva a uma acção (isto é, que o componente consciente de uma emoção segue as reacções corporais de um estímulo), como postulado no final de 1800 por William James e Carl Lange (Panksepp 1998). James e Lange argumentaram que o medo, por exemplo, resulta da consciência das mudanças corporais (frequência cardíaca, temperatura) que foram desencadeados por um estímulo desagradável.

Seguindo as críticas de Walter Cannon's à teoria JamesLange, hoje em dia os pesquisadores acreditam que há um componente mental que não tem de seguir uma reacção corporal (Panksepp 1998). Experiências mostraram que as drogas que produzem alterações corporais, como aquelas que acompanham uma experiência emocional medo, por exemplo não produzem o mesmo tipo de experiência consciente do medo (Damásio 1994).


A natureza e as bases neurais das paixões animais: Emoções primárias e secundárias
É difícil observar o comportamento notável dos elefantes durante uma cerimónia de saudação entre familiares ou o nascimento de um novo membro da família, uma interacção lúdica, o acasalamento de um parente, o resgate de um membro da família ou a chegada de um elefante macho agressivo e não imaginar que eles sentem emoções bastante fortes e que podem muito bem ser descritas como alegria, felicidade, amor, sentimentos ou amizade, exuberância, divertimento, prazer, compaixão, alívio e respeito. (Poole 1998, pp. 90–91)
Os estados emocionais de inúmeros animais são facilmente reconhecíveis. As suas feições, os seus olhos e as maneiras com as quais eles se portam podem ser usados como inferências fortes sobre o que eles estão a sentir. Alterações no tónus muscular, postura, marcha, expressão facial, tamanho e expressão dos olhos, vocalizações e odores (feromonas), isoladamente e em conjunto, indicam respostas emocionais a determinadas situações. Até pessoas com pouca experiência na observação de animais geralmente concordam umas com as outras sobre o que um animal estará, provavelmente, a sentir. As suas intuições são confirmadas porque as caracterizações dos estados emocionais dos animais predizem o comportamento futuro com bastante precisão.

As emoções primárias, consideradas emoções inatas básicas, incluem reflexos generalizados e rápidos (automáticos ou programados), medo e respostas de luta ou fuga a estímulos que representam perigo. Os animais podem apresentar um medo primário como resposta, como evitar um objecto, mas eles não têm de reconhecer o objecto que gera essa reacção. Sons ruidosos, certos odores e objectos que voam acima deles levam, frequentemente, a uma reacção inata de evitar todos esses estímulos que indicam perigo. A selecção natural resultou em reacções inatas que são cruciais para a sobrevivência individual. Há pouco ou nenhum espaço para erros quando confrontados com um estímulo perigoso.

As emoções primárias estão ligadas ao velho sistema límbico evolucionário (especialmente a amígdala), a parte emocional do cérebro, assim chamado por Paul MacLean em 1952 (MacLean 1970, Panksepp 1998).

Estruturas no sistema límbico e circuitos emocionais similares são compartilhados entre muitas espécies diferentes e fornecem um substrato neural para emoções primárias. MacLean (1970), sobre a sua teoria do cérebro trino, sugeriu que havia o cérebro reptiliano ou primitivo (possuído por peixes, anfíbios, répteis, aves e mamíferos), o sistema límbico ou cérebro dos mamíferos inferiores [paleomammalian brain] e o neocórtex ou cérebro racional (possuído por alguns mamíferos, como os primatas), todos embalados no crânio. Cada um está ligado aos outros dois, mas cada um também tem as suas próprias capacidades. Enquanto o sistema límbico parece ser a principal área do cérebro em que residem muitas emoções, certas pesquisas (LeDoux 1996) indicam que todas as emoções não têm de estar necessariamente empacotadas num único sistema, pelo que pode haver mais de um sistema emocional no cérebro.

As emoções secundárias são aquelas que são experimentadas ou sentidas, avaliadas e reflectidas. Emoções secundárias envolvem centros cerebrais superiores no córtex cerebral. Embora a maioria das respostas emocionais pareça ser gerada inconscientemente, a consciência permite que um indivíduo faça conexões entre sentimentos e acção e permita a variabilidade e flexibilidade no comportamento.

O estudo da mente dos animais: Etologia cognitiva

Niko Tinbergen (1951, 1963), laureado com um Nobel, identificou quatro áreas com as quais as investigações etológicas se devem focar, nomeadamente a evolução, adaptação (função), causalidade e desenvolvimento. A sua estrutura também é útil para os interessados na cognição animal (Jamieson e Bekoff 1993, Allen e Bekoff 1997), e pode ser aplicada para estudar emoções nos animais.

Os etologistas cognitivos desejam saber como os cérebros e as habilidades mentais evoluíram como contribuem para a sobrevivência e quais forças selectivas resultaram na grande variedade de cérebros e habilidades mentais que são observadas em várias espécies de animais. Em essência, os etologistas cognitivos querem saber como é ser outro animal. Questionar como é ser outro animal requer seres humanos que tentem pensar como eles, para entrar nos seus mundos. Ao participar dessas actividades, muito pode ser aprendido sobre emoções nos animais. Numa tentativa de expandir o trabalho de Tinbergen, para incluir o estudo sobre emoção e cognição nos animais, Burghardt (1997) sugeriu adicionar uma quinta área que ele chamou de experiência privada. O propósito de Burghardt é entender os mundos perceptivos e os estados mentais de outros animais, pesquisa que Tinbergen considerou infrutífera por sentir que era impossível saber sobre experiências subjectivas ou privadas de animais.

Emoção e cognição

Talvez a questão mais complicada e não respondida sobre as emoções dos animais seja sobre como as emoções e a cognição estão ligadas, como as emoções são sentidas, ou reflectidas, tanto por humanos como por outros animais. Pesquisadores também desconhecem quais as espécies que têm, ou não, a capacidade de se envolver em reflexões conscientes sobre as emoções. Uma combinação de abordagens evolucionistas, comparativas e de desenvolvimento estabelecidas por Tinbergen e Burghardt, combinadas com estudos comparativos das bases neurobiológicas e endocrinológicas das emoções em vários animais, trazem muitas promessas para trabalhos futuros alusivos às relações entre a cognição e as experiências de várias emoções de indivíduos.

Damásio (a1999a, d1999) fornece uma explicação biológica de como as emoções podem ser sentidos nos humanos. A sua explicação também se pode aplicar a alguns animais. Damásio sugere que as variadas estruturas cerebrais mapeiam tanto o organismo quanto os objectos externos para criar o que ele designa de representação de segunda ordem. Esse mapeamento do organismo e do objecto provavelmente ocorre no tálamo e no giro do cíngulo. Um senso de identidade no acto de conhecer é criado, e o indivíduo sabe a quem isso está a acontecer. O que vê e o que é visto, o pensamento e o pensadorsão um só.

Claramente, uma compreensão do comportamento e da neurobiologia é necessária para perceber como as emoções e a cognição estão correlacionadas. É fundamental que os pesquisadores aprendam o máximo possível sobre as experiências, sentimentos e estados mentais. A questão de se e como as emoções dos animais são experimentadas apresenta um desafio para pesquisas futuras.

Mentes privadas

Um problema que assola os estudos sobre emoções nos animais e a cognição é que as mentes dos outros são entidades privadas (para uma discussão detalhada do que a privacidade de outras mentes implica, ver Allen e Bekoff 1997, p. 52ff). Assim, os humanos não têm acesso directo às mentes dos outros indivíduos, incluindo de outros humanos.

Enquanto é verdade que isto é muito complicado, talvez impossível, saber tudo o que há para saber sobre os estados pessoais e subjectivos de outros indivíduos, tal não significa que os estudos sistemáticos de comportamento e neurobiologia não possam ser usados para nos ajudar a aprender mais sobre as mentes dos outros. Estes incluem análises comparativas e evolucionistas (Allen e Bekoff 1997). No entanto, no que diz respeito às emoções, não parece existir vias de investigação ou áreas científicas suficientemente fortes para convencer alguns cépticos de que os outros animais possuem mais do que certas emoções básicas e primárias. Mesmo que as futuras pesquisas demonstrem que áreas semelhantes (ou análogas) do cérebro de um chimpanzé ou de um cão mostram a mesma actividade que um cérebro humano quando uma pessoa relata que está feliz ou triste, alguns cépticos frisarão firmemente a visão de que é impossível saber o que um indivíduo está realmente a sentir e que, portanto, esses estudos são infrutíferos. Eles afirmam que apenas porque o animal age como se estivesse feliz ou triste, os seres humanos não podem afirmar mais do que simplesmente como se, sendo que este como se fornece evidência insuficiente. O renomado biólogo evolucionista George Williams (1992, p. 4) clamou: Estou inclinado a, simplesmente, excluí-lo [o reino mental] da explicação biológica, por ser um fenómeno inteiramente privado quando a biologia deve lidar com aquilo que é publicamente demonstrável. (Ver também Williams 1997 para uma demissão mais forte da possibilidade de aprender sobre fenómenos mentais em pesquisas biológicas).

No entanto, muitas pessoas, incluindo pesquisadores que estudam a emoção nos animais, são da opinião de que os humanos não são os únicos animais que experimentam emoções (Bekoff 2000). Aliás, é improvável que as emoções secundárias tenham evoluído somente nos humanos, sem precursores nos outros animais. Poole (1998), que estudou elefantes por muitos anos, registou (p. 90): Enquanto me sinto confiante de que os elefantes sentem algumas emoções que nós não sentimos, e vice-versa, também acredito que experienciamos imensas emoções em comum.

É muito difícil negar categoricamente que outros animais não se divertem enquanto brincam, que estão felizes quando se reúnem, ou ficam tristes quando perdem um amigo íntimo. Considere os lobos quando eles se juntam, cujas caudas balançam frouxamente para lá e para cá e indivíduos a choramingar e a pular. Considere também os elefantes quando se reúnem numa grande celebração, abanando as suas orelhas, girando e emitindo uma vocalização conhecida como ressoar de saudação. Da mesma forma, pense no que os animais estão a sentir quando se afastam do grupo social devido à morte de um amigo, ficando deprimidos, deixando de comer e acabando por morrer. Pesquisas comparativas, evolutivas e interdisciplinares podem lançar uma luz sobre a natureza e a distribuição taxonómica das emoções dos animais.

Charles Darwin e a evolução das emoções nos animais
É notável com que frequência os sons que as aves fazem sugere as emoções que podemos sentir em circunstâncias similares: notas suaves como canções de embalar enquanto, calmamente, aquecem os seus ovos ou filhotes; choro triste enquanto observam, impotentes, um intruso nos seus ninhos; sons ásperos ao ameaçarem ou atacarem um inimigo... As aves reagem a eventos com tanta frequência em tons como aqueles que podemos usar, que podemos suspeitar que as suas emoções são semelhantes às nossas. (Skutch 1996, pp. 41–42).
Contanto que alguma criatura experimentou alegria, a condição para todas as outras criaturas inclui um fragmento de alegria. (Dick 1968, p. 31).
Charles Darwin é usualmente creditado como o primeiro cientista a dar séria atenção ao estudo das emoções nos animais. Nos seus livros On the Origin of Species (1859), The Descent of Man and Selection in Relation to Sex (1871) e The Expression of the Emotions in Man and Animals (1872), Darwin argumentou que existe uma continuidade entre os seres humanos e outros animais nas suas vidas emocionais (e cognitivas); que existem estágios de transição entre espécies, e não lacunas grandes; e que as diferenças entre muitos animais são diferenças de grau e não de espécie.

Darwin aplicou o método comparativo ao estudo da expressão emocional. Ele utilizou seis métodos para estudar a expressão emocional: observações de bebés; observações dos insanos, os quais ele julgou menos capazes de esconder as emoções do que os outros adultos; julgamentos das expressões faciais criadas por estimulação eléctrica dos músculos faciais; análises de pinturas e esculturas; comparações de expressões e gestos interculturais, especialmente em pessoas distantes dos Europeus; e observações das expressões dos animais, especialmente cães domésticos.

Uma ampla abordagem evolutiva e comparativa do estudo das emoções ajudará os investigadores a aprender mais sobre a distribuição taxonómica das emoções. Por exemplo, os répteis, como as iguanas, maximizam o prazer sensorial (Cabanac 1999, 2000, Burghardt 2000). Cabanac (1999) descobriu que as iguanas preferem manter-se quentes do que aventurarem-se no frio para procurar comida, enquanto os anfíbios como os sapos não mostram esse comportamento. Nem os peixes. As iguanas experimentam o que é chamado de febre emocional (aumento da temperatura corporal) e taquicardia (aumento da frequência cardíaca), respostas fisiológicas que estão associadas com o prazer noutros vertebrados, incluindo os humanos. Cabanac instou que o primeiro evento mental a emergir na consciência foi a capacidade de um indivíduo experimentar as sensações de prazer e desprazer. A pesquisa de Cabanac sugere que os répteis experimentam estados emocionais básicos, e que a capacidade de ter uma vida emocional surgiu entre os anfíbios e os répteis iniciais. As suas descobertas são consistentes com algumas teorias de MacLean (1970) sobre o cérebro trino.


Alegria, felicidade e diversão

Exemplos de emoções nos animais são abundantes na leitura científica popular (Masson e McCarthy 1995, Panksepp 1998, Bekoff 2000). Diversão social é um excelente exemplo de um comportamento em que muitos animais participam, sendo que eles parecem desfrutar imensamente dele. Os indivíduos ficam imersos na actividade, e não parece haver outro objectivo a não ser o de brincar. Como Groos (1898) apontou, os animais que se divertem parecem sentir uma liberdade incrível.

Os animais procuram divertir-se frequentemente e quando um potencial parceiro não responde a um convite para brincar, eles acabam por procurar outro indivíduo (Bekoff 1972, Fagen 1981, Bekoff e Byers 1998). Sinais de jogo específicos também são usados para iniciar e manter a diversão (Bekoff 1977, 1995, Allen e Bekoff 1997). Se todos os parceiros em potencial recusarem o convite, os animais individuais brincarão com objectos ou perseguirão as suas próprias caudas. O clima de brincadeira também é contagiante; apenas ver os animais a brincar pode estimular que os outros brinquem. Considere-se as minhas anotações sobre dois cães a brincar num campo.
Jethro corre em direcção a Zeke, pára imediatamente na frente dele, agacha-se ou curva-se nos membros anteriores, abana o rabo, late, e imediatamente avança para ele, morde a sua nuca e balança a cabeça rapidamente de um lado para o outro, faz o seu caminho para o traseiro e monta nele, salta, faz uma curva rápida, arremessa-se ao seu lado e bate-lhe com os seus quadris, pula e morde-lhe o pescoço e foge. Zeke persegue Jethro e pula sobre as suas costas e morde-lhe o focinho e a seguir o pescoço, e balança a sua cabeça rapidamente de lado a lado. Eles então lutam um com o outro por alguns minutos. Jethro caminha lentamente até Zeke, estende a pata em direcção à cabeça de Zeke e morde-lhe as orelhas. Zeke levanta-se e pula nas costas de Jethro, morde-o, e agarra-o pela cintura. Eles então caem para o chão e lutam com as suas bocas. Então, eles perseguem-se um ao outro e rolam e brincam.
Certa vez observei um jovem alce na Rocky Mountain National Park, no Colorado, a correr num campo de neve, pulando no ar e torcendo o seu corpo durante o voo, parando, recuperando o fôlego e fazendo isso de novo e de novo. Havia muito terreno relvado, mas ele escolheu a neve. Os búfalos também se perseguem e brincam correndo e escorregando pelo gelo, gritandoGwaaa enquanto o fazem (Canfield 1998).

Parece ser ainda mais difícil negar que estes animais divertiram-se e que tiveram gosto nisso. Dados neurobiológicos apoiam inferências baseadas em observações comportamentais. Estudos sobre a química de brincar apoiam a ideia de que brincar é agradável. Siviy (1998; ver Panksepp 1998 para sumários extensos) mostrou que a dopamina (e talvez a serotonina e a norepinefrina) é importante na regulação do jogo e que grandes regiões no cérebro estão activas durante o jogo. Ratos exibem um aumento na actividade da dopamina quando antecipam a oportunidade de brincar (Siviy 1998). Panksepp (1998) também encontrou uma associação próxima entre opiáceos e brincar e afirma que os ratos gostam de cócegas durante as brincadeiras.

Dados neurobiológicos são necessários para aprender mais sobre se a diversão é uma actividade subjectivamente prazerosa para os animais como parece ser para os humanos. As descobertas de Siviy e Panksepp sugerem que assim o é. À luz desses dados neurobiológicos referentes a possíveis bases neuroquímicas para vários estados de ânimo, neste caso alegria e prazer, os cépticos declaram que os animais não sentem emoções, embora sejam mais propensos a aceitar a ideia de que o prazer poderia ser um motivador para o comportamento de brincar.

Luto
Nunca esquecerei quando, três depois da morte da Flo, o Flint subiu lentamente uma árvore alta perto da corrente. Ele caminhou ao longo de um dos ramos e então parou e ficou imóvel, a olhar para um ninho vazio. Cerca de dois minutos depois, virou-se e, com os movimentos de um homem velho, desceu, andou alguns passos e olhou adiante com os olhos arregalados. O ninho era um que ele e Flo tinham compartilhado antes de Flo morrer... na presença do seu grande irmão [Figan], [Flint] parecia ter sacudido um pouco a sua depressão. Então, de repente ele deixou o grupo, correu de volta para o lugar onde Flo tinha morrido e afundou-se numa depressão cada vez mais profunda... Flint tornou-se cada vez mais letárgico, passou a recusar comida e, com o seu sistema imunitário enfraquecido, adoeceu. A última vez que o vi vivo ele estava oco, magro e totalmente deprimido, encolhido na vegetação perto do local onde Flo morreu... na última jornada que ele fez, parando para descansar a cada poucos metros, estava no mesmo lugar onde o corpo de Flo foi encontrado. Por lá ele ficou durante várias horas, às vezes olhando para a água. Ele lutou um pouco mais, depois encolheu-se e nunca mais se moveu. (Goodall 1990, pp. 196–197)
Muitos animais demonstram pesar pela perda ou ausência de um amigo íntimo ou ente querido. Uma descrição viva da expressão do luto é oferecida acima Goodall (1990) observou Flint, um chimpanzé de oito anos e meio, a afastar-se do seu grupo, a deixar de se alimentar e acabar por morrer depois da sua mãe, Flo, falecer. O premiado com o Nobel, Konrad Lorenz, observou luto em gansos e como estes tinham um pesar semelhante às crianças pequenas. Ele forneceu o seguinte relato sobre o pesar dos gansos: Um ganso-bravo perdeu o seu parceiro e mostra todos os sintomas que John Bowlby descreveu em crianças humanas jovens no seu famoso livro Infant Grief... os olhos afundam-se profundamente nas suas órbitas, e o indivíduo tem uma experiência geral de depressão, deixando literalmente a cabeça descair... (Lorenz 1991, p. 251)

Outros exemplos de luto são oferecidos por Bekoff (2000). Mães leões-marinhos, ao verem os seus bebés a ser devorados por orcas, guincham assustadoramente, expressando o seu pesar. Os golfinhos também foram observados a lutar para salvar um bebé morto. Os elefantes foram observados a tomar guarda perante um natimorto durante dias, quietos e com as orelhas penduradas, movendo-se lentamente como se estivessem deprimidos. Elefantes órfãos, que viram as suas mães ser mortas, costumam acordar aos gritos. Poole (1998) afirma que o luto e a depressão nos elefantes órfãos são um fenómeno real. McConnery (citado em McRae, 2000, p. 86) anota sobre os gorilas órfãos e traumatizados: A luz dos seus olhos simplesmente desaparece, e eles morrem. Pesquisas comparativas em neurobiologia, endocrinologia e comportamento são necessárias para aprender mais sobre a natureza subjectiva de um animal enlutado.

Amor romântico

A corte e o acasalamento são duas actividades em que muitos animais se envolvem regularmente. Muitos animais aparentam apaixonar-se uns pelos outros como acontece com os humanos. Heinrich (1999) é da opinião de que os corvos se apaixonam. Ele escreve (Heinrich 1999, p. 341): Visto que os corvos têm parceiros de longa data, suspeito que eles se apaixonam como nós, simplesmente porque alguma recompensa interna é necessária para manter um par de longo prazo. Em muitas espécies, o amor romântico desenvolve-se lentamente entre parceiros em potencial. É como se os parceiros precisassem de provar o seu valor para o outro antes de consumarem o seu relacionamento.

Würsig (2000) descreveu o cortejamento em baleias francas do sul da Península Valdis, na Argentina. Enquanto cortejavam, Aphro (fêmea) e Butch (macho) tocavam continuamente as barbatanas, começaram um lento movimento de acariciar, rolaram em direcção um do outro, fecharam brevemente os dois conjuntos de nadadeiras num abraço e depois rolaram para cima, deitados lado a lado. Então, eles nadaram, lado a lado, tocando, emergindo e mergulhado em uníssono. Würsig acompanhou Butch e Aphro por uma hora, durante a qual eles continuaram a sua viagem. Würsig acredita que Aphro e Butch ficaram poderosamente atraídos um pelo outro, e tiveram pelo menos uma sensação de resplendor enquanto nadavam. Ele pergunta, não poderia ser isso um amor leviatã?

Muitas coisas passaram por amor pelos humanos, mas não negamos a sua existência, nem hesitamos em dizer que os humanos são capazes de se apaixonar. É improvável que o amor romântico (ou qualquer emoção) tenha aparecido pela primeira vez em humanos sem precursores evolutivos em animais. De facto, existem sistemas cerebrais comuns e substâncias químicas homólogas subjacentes ao amor que são compartilhadas entre humanos e animais (Panksepp 1998). A presença desses caminhos neurais sugere que, se os seres humanos conseguem sentir amor romântico, pelo menos alguns animais também experimentam essa emoção.

Constrangimento

Alguns animais aparentam sentir embaraço: isto é, eles esperam encobrir algum evento e o sentimento que nele acompanha. Goodall (2000) observou aquilo que pode ser denominado como o embaraço nos chimpanzés. Quando a cria mais velha de Fifi, Freud, tinha cinco anos e meio, o seu tio, o irmão da Fifi, Figan, era o macho alfa da comunidade. Freud seguia sempre Figan; ele venerava o grande macho. Um dia, enquanto Fifi cuidava de Figan, Freud trepou a haste fina de uma bananeira selvagem. Quando ele chegou à copa frondosa, começou a balançar de um lado para o outro descontroladamente. Se ele fosse uma criança humana, teríamos dito que ele se estava a exibir. De repente, a haste quebrou e Freud caiu na relva alta. Ele aterrou perto de Goodall e, quando a sua cabeça emergiu da relva, ela viu-o a olhar para Figan será que ele notou? Se notou não prestou atenção, e continuou a arrumar-se. Freud subiu silenciosamente outra árvore e começou a alimentar-se.

Hauser (d2000) notou que o que poderia ser chamado de constrangimento num macaco rhesus macho. Depois da cópula, o macho afastou-se e, acidentalmente, caiu numa vala. Ele levantou-se rapidamente e olhou em volta. Depois de perceber que os outros macacos não o viram a cair, ele caminhou, de cabeça e cauda erguidas, como se nada tivesse acontecido. Mais uma vez, pesquisas comparativas em neurobiologia, endocrinologia e comportamento são precisas para aprender mais sobre a natureza subjectiva do constrangimento.

Estudar as emoções dos animais

A melhor forma de aprender sobre as vidas emocionais dos animais passa por dedicar tempo considerável a estudá-las cuidadosamente realizando pesquisas comparativas e evolutivas etológicas, neurobiológicas e endocrinológicas e a resistir às afirmações dos críticos de que o antropomorfismo não tem lugar nesses esforços.

Afirmar que não se pode compreender elefantes, golfinhos ou outros animais porque não somos um deles não nos leva a lado nenhum. É importante tentar aprender como os animais vivem nos seus próprios mundos, para se poder entender as suas perspectivas (Allen e Bekoff 1997, Hughes 1999). Os animais evoluíram em situações específicas e únicas e temos de dar-lhes um desconto para tentarmos entendê-los a partir da nossa própria perspectiva. Para ter a certeza, ganhar este tipo de conhecimento é difícil, mas não é impossível. Talvez tão pouco tenha sido feito no estudo das emoções nos animais por causa do receio de ser não científico. Como resposta para o meu convite para contribuir num ensaio para o meu quarto livro sobre emoções dos animais (Bekoff 2000), um colega escreveu: Não tenho a certeza do que posso produzir, mas com certeza que não é científico. E não tenho a certeza do que posso dizer. Não estudei animais em circunstâncias naturais e, embora tenha interesse em emoções, notei poucas. Deixa-me pensar sobre isso. Por outro lado, muitos outros cientistas estavam ansiosos para contribuir. Eles acreditaram que podiam ser científicos e, ao mesmo tempo, usar outros tipos de dados para aprender sobre emoções nos animais; ou seja, que é permitido aos cientistas escrever sobre assuntos do coração (embora pelo menos um proeminente biólogo tenha tido dificuldade em publicar esse material; Heinrich 1999, p. 322).


Antropomorfismo biocêntrico: Expandir a ciência com cuidado
... somos obrigados a reconhecer que toda a interpretação psíquica de comportamento animal tem de estar na analogia da experiência humana... Quer queiramos ou não, temos de ser antropomórficos nas noções que formamos daquilo que acontece na mente de um animal. (Washburn 1909, p. 13)
O modo como os humanos começam a descrever e a explicar o comportamento de outros animais é limitado pela linguagem que eles usam para falar sobre coisas em geral. Ao se engajarem com o antropomorfismo usar termos humanos para explicar emoções ou sentimentos de animais os humanos tornam o mundo dos outros animais acessíveis para eles mesmos (Allen e Bekoff 1997, Bekoff e Allen 1997, Crist 1999). Mas isto não é dizer que os animais estão felizes ou tristes da mesma maneira que os humanos (ou até mesmo outros coespecíficos) estão felizes ou tristes. Claro que não posso certificar em absoluto que o Jethro, o meu cão, está feliz, triste, zangado, aborrecido ou apaixonado, mas estas palavras servem para explicar o que ele poderá estar a sentir. No entanto, referir-se ocasionalmente ao disparo de diferentes neurónios ou à actividade de diferentes músculos na ausência de informação comportamental e contexto é insuficientemente informativo. Usar linguagem antropomórfica não tem de subtrair o ponto de vista do animal. O antropomorfismo permite que o comportamento e emoções de outros animais nos sejam acessíveis. Por isso, mantenho que podemos ser biocentricamente antropomórficos e conduzir ciência rigorosa.

Para fazer com que o uso do antropomorfismo e a sua narrativa seja mais aceitável para aqueles que se sentem pouco à vontade descrevendo animais com palavras como contente, triste, deprimido ou ciumento, ou aqueles que não pensam que meras histórias sobre animais oferecem realmente muita informação útil, Burghardt (1991) sugeriu a noção de antropomorfismo crítico, no qual variadas fontes de informação são utilizadas para gerar ideias que poderão ser valiosas em pesquisas futuras. Estas fontes incluem história natural, percepções individuais, intuições, sentimentos, descrições cuidadosas de comportamento, identificação com o animal, modelos optimizados, e estudos prévios. Timberlake (1999) sugeriu um novo termo, teomorfismo, para nos afastar das armadilhas do antropomorfismo. O teomorfismo é centrado nos animais e baseado numa informação convergente a partir do comportamento, fisiologia e resultados de manipulações experimentais (Timberlake 1999, p. 256). O teomorfismo é, essencialmente, antropomorfismo crítico e não nos ajuda a superar a necessidade derradeira de usar termos humanos para explicar o comportamento e as emoções dos animais.

Burghardt e outros sentem-se confortáveis em expandir a ciência cuidadosamente para obter um melhor discernimento sobre os outros animais. No entanto, Burghardt e outros cientistas que apoiam abertamente a utilidade do antropomorfismo não estão sozinhos (ver Crist 1999). Alguns cientistas, como Rollin (1989) aponta, sentem-se muito confortáveis em atribuir emoções humanas a, por exemplo, animais de companhia com quem partilham as suas casas. Esses investigadores contam histórias sobre como o Fido (um cão) fica contente quando chegam a casa, como o Fido fica triste quando o deixam em casa ou lhe tiram um osso de roer, como o Fido sente falta dos seus amigos, ou quão esperto é Fido por descobrir como contornar um obstáculo. Mesmo assim, quando os mesmos cientistas entram nos seus laboratórios, os cães (e outros animais) tornam-se objectos, e discutir sobre as suas vidas emocionais e o quanto são inteligentes é um tabu. Uma resposta para a questão do porquê dos cães (e outros animais) serem vistos de maneira diferente no trabalho e em casa, é que no trabalho os cães são submetidos a uma ampla variedade de tratamentos que seriam difíceis de administrar nos cães de companhia. Isso é alicerçado por estudos recentes. Baseado numa série de entrevistas com cientistas, Phillips (1994, p. 119) reportou que muitos deles constroem uma categoria distinta de animal, o animal de laboratório, que contrasta com animais identificáveis (por exemplo, os de estimação) em todas as dimensões salientes... o gato ou cão do laboratório é percepcionado pelos cientistas como ontologicamente diferente dos seus cães e gatos que estão nas suas casas.

A importância da pesquisa interdisciplinar pluralista: A ciência dura conhece a ciência suave

Um ataque amplo e motivado ao estudo das emoções nos animais exigirá que os pesquisadores de vários campos Etologia, Neurobiologia, Endocrinologia, Psicologia e Filosofia coordenem os seus esforços. Nenhuma disciplina será capaz de responder a todas as questões importantes que ainda precisam de ser tratadas no estudo das emoções nos animais. Cientistas ligados a laboratórios, pesquisadores de campo e filósofos devem partilhar dados e ideias. Na verdade, alguns biólogos entraram em sério diálogo com filósofos e alguns filósofos engajaram-se com o trabalho de campo (Allen e Bekoff 1997). Como resultado dessas colaborações, cada um experimentou as opiniões dos outros e as bases para os tipos de argumentos que são oferecidos em relação às emoções dos animais e habilidades cognitivas. A pesquisa interdisciplinar é a regra e não a excepção em inúmeras disciplinas científicas, pelo que não há razão para acreditar que esse tipo de esforço não nos ajude a aprender consideravelmente sobre a vida emocional dos animais.

Pesquisas futuras devem-se focar numa ampla gama de táxons, e não dar apenas atenção aos animais com os quais estamos familiarizados (por exemplo, animais de companhia) ou aos quais estamos intimamente relacionados (primatas não-humanos), animais aos quais muitos de nós atribui emoções secundárias e uma grande variedade de estados de ânimo. Muita informação pode ser recolhida através dos animais de companhia com os quais estamos tão familiarizados, principalmente por estarmos tão ligados a eles (Sheldrake 1995, 1999). Espécies diferentes na expressão de emoções e talvez o que elas sentem também precisam de ser levadas em conta. Mesmo que a alegria e o pesar dos cães não sejam os mesmos que a alegria e o pesar dos chimpanzés, elefantes ou humanos, isso não significa que não haja algo como a alegria do cão, a dor do cão, a alegria dos chimpanzés, ou o pesar dos elefantes. Mesmo os animais selvagens e os seus parentes domesticados podem diferir na natureza das suas vidas emocionais.

Muitas pessoas acreditam que pesquisas experimentais em áreas como a neurobiologia constituem mais trabalho viável e gera mais dados úteis (dura) do que, digamos, estudos etológicos nos quais os animais são meramente observados. Contudo, uma pesquisa que reduz e minimiza o comportamento animal e as emoções dos animais a disparos neurais, movimentos musculares, e efeitos hormonais provavelmente não nos levará significativamente mais perto de uma compreensão das emoções dos animais. Conclui-se que saberemos a maioria, se não tudo o que podemos aprender sobre emoções nos animais, quando descobrimos que o circuito neural ou as bases hormonais de emoções específicas produzirão pontos de vista incompletos e talvez enganosos sobre a verdadeira natureza das emoções animais e humanas.

Todas as pesquisas envolvem saltos de fé dos dados disponíveis para as conclusões que tiramos quando tentamos compreender as complexidades das emoções nos animais, e cada um tem os seus benefícios e as suas deficiências. Muitas vezes, estudos sobre o comportamento de animais em cativeiro e pesquisas neurobiológicas são controladas de modo a produzir resultados espúrios em relação ao comportamento social e às emoções, devido aos animais serem estudados em ambientes sociais e físicos artificiais e empobrecidos. As experiências em si podem colocar os indivíduos em situações totalmente antinaturais. De facto, alguns investigadores descobriram que muitos animais de laboratório são tão stressados por viverem em cativeiro que os dados sobre as emoções e outros aspectos da fisiologia comportamental estão contaminados desde o começo (Poole 1997).

Trabalho de campo também pode ser problemático. Pode ser demasiado incontrolável para permitir tirar conclusões confiáveis. É difícil seguir indivíduos conhecidos e muito do que eles fazem não consegue ser visualizado. No entanto, é possível encaixar animais livres com dispositivos capazes de transmitir informações sobre a identidade individual, frequência cardíaca, temperatura corporal e movimentos oculares à medida que os animais passam pelas suas actividades diárias. Esta informação está a ajudar pesquisadores a aprender mais sobre a estreita relação entre a vida emocional dos animais e os factores comportamentais e fisiológicos que estão correlacionados com essas emoções.

É essencial que os pesquisadores tenham experiência directa com os animais que estão a ser estudados. Não há substitutos para estudos etológicos. Embora dados neurobiológicos (incluindo imagem cerebral) sejam bastante úteis para compreender os mecanismos subjacentes dos padrões comportamentais dos quais são feitas inferências sobre emoções, o comportamento é primário; sistemas neurais subservem o comportamento (Allen e Bekoff, 1997). Na ausência de informações detalhadas sobre comportamento, especialmente o comportamento de animais selvagens que vivem em ambientes nos quais evoluíram ou nos quais eles agora residem, qualquer teoria sobre emoções nos animais ficará incompleta. Sem informação detalhada sobre comportamento, e uma apreciação profunda das complexidades e nuances das inúmeras maneiras pelas quais os animais expressam aquilo que sentem, nunca chegaremos a um acordo com os desafios que nos são apresentados.

Partilhando o ónus da prova

Futuramente, os cépticos devem ser obrigados a montar uma defesa séria da sua posição e compartilhar o ónus da prova com aqueles que aceitam que muitos animais experimentam realmente uma miríade de emoções. Não será mais aceitável afirmar que sim, os chimpanzés ou os corvos parecem amar-se uns aos outros ou que os elefantes parecem sentir pesar e aí apresentar inúmeras razões não podemos realmente saber se os animais sentem emoções” — porque isso não pode ser assim. Explicações sobre a existência de emoções nos animais têm frequentemente um bom fundamento quanto muitas outras explicações que aceitamos prontamente (por exemplo, afirmações sobre evolução que não podem ser rigorosamente verificadas). Eu e outras pessoas aceitamos prontamente que, em alguns casos, as emoções que atribuímos a animais (e seres humanos) podem não ser imagens realistas das suas vidas inerentes (como expressas em comportamento aberto e talvez apoiadas por dados neurobiológicos), mas em outros casos podem-no ser.

Também há o problema de conciliar o senso comum com dados de estudos etológicos, neurobiológicos e pesquisas endocrinológicas e argumentos filosóficos. Muitos ramos da Ciência usam narrativas para desenvolver projectos de pesquisa que produzem dados (o plural de narrativa é dados). Permitir que histórias de emoções em animais motivem pesquisas que começam com a premissa de que muitos outros animais têm vidas emocionais ricas ajudar-nos-á a aprender mais sobre eles. Nós podemos verdadeiramente fazer perguntas tais como se os animais amam-se uns aos outros, se eles lamentam a perda de amigos e entes queridos, se eles ressentem os outros, ou se eles ficam constrangidos (Bekoff 2000).

Conhecer o diabo

Panksepp (1998) fornece uma experiência mental útil no final da sua pesquisa enciclopédica de emoções. Imagine que se depara com a escolha do diabo em relação à existência de emoções nos animais. Tem de responder correctamente à questão de saber se outros mamíferos experimentaram, ou não, sentimentos emocionais internamente. Se der a resposta errada, irá para o Inferno. Por outras palavras, as apostas são altas. Panksepp pergunta quantos cientistas negariam nessas circunstâncias que, pelo menos, alguns animais têm sentimentos. Provavelmente, poucos.

O futuro desafiador
Para afirmar, por exemplo, que as vieiras não são conscientes de nada, que elas saem do caminho de potenciais predadores sem experimentá-los como tal e quando não conseguem fazê-lo, são comidas vivas sem (muito possivelmente) sentir dor... é ultrapassar os limites da erudição rigorosa para um labirinto de suposições injustificadas, confundindo a ignorância humana com o conhecimento humano. (Sheets-Johnstone 1998, p. 291)
Há, obviamente, muitos desacordos sobre a vida emocional dos outros animais. As questões seguintes podem ser usadas na preparação do terreno para aprender mais sobre a evolução e a expressão das emoções dos animais: O nosso humor move-nos, então porque não outros animais? As emoções ajudam-nos a administrar e regular as nossas relações com os outros, então porque não para os outros animais? As emoções são importantes para os humanos se adaptarem a circunstâncias específicas, então porque não para outros animais? As emoções são parte integrante da vida humana, então porque não para outros animais?

Pesquisas actuais sugerem que nenhuma teoria única das emoções pode explicar todos os fenómenos psicológicos que são chamados de emoções. Panksepp afirma (1998, p. 7) que para entender os sistemas operacionais emocionais básicos do cérebro, temos de começar a relacionar conjuntos incompletos de factos neurológicos a fenómenos psicológicos mal compreendidos que emergem de muitas actividades cerebrais interactivas. Não há dúvida de que existe continuidade entre os sistemas neurocomportamentais subjacentes às emoções humanas e não-humanas, que as diferenças entre as emoções humanas e animais são, em muitos casos, diferenças de grau e não diferenças de género.

Permanecendo aberto à ideia de que muitos animais têm uma vida emocional rica, mesmo que, em alguns casos, estejamos errados, pouco se perde de verdade. Já fechando a porta à possibilidade de que muitos animais têm vidas emocionais ricas, mesmo que sejam muito diferentes das nossas ou dos animais com os quais estamos mais familiarizados, leva-nos a perder grandes oportunidades de aprender sobre a vida dos animais com quem nós compartilhamos este planeta maravilhoso.

O futuro contém muitos desafios e talvez surpresas para aqueles que querem aprender mais sobre as emoções dos animais. O estudo rigoroso das emoções dos animais exigirá o aproveitamento dos melhores recursos possíveis. Esses recursos incluem pesquisadores de várias disciplinas científicas que fornecem dados concretos e narrativas (Bekoff 2000), não académicos que observam animais e contam histórias, e os próprios animais. Há espaço amplo para a ciência dura e suave no estudo das emoções dos animais. Existem muitos mundos além da experiência humana. Não há substitutos para escutar, e ter experiências directas, com outros animais.

Agradecimentos

Agradeço a Colin Allen pelos comentários sobre um rascunho ancestral deste ensaio e a Jane Goodall por discutir muitas destas questões comigo. Bernard Senney Rollin, Donald Griffin, Rebecca Chasan, Janice Moore e Steve Siviy forneceram comentários úteis, para os quais estou profundamente grato.

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Para ver as referências utilizadas, aceder ao artigo original.
Tradução para português europeu de Quebra do Silêncio
A tradução não obedece ao novo acordo ortográfico.

Arte de Andreas Lie

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